Uma política de uso de inteligência artificial que cabe em uma frase de proibição total tem uma vantagem: é rápida de escrever. E uma desvantagem: empurra o uso para fora do alcance da empresa, sem reduzir o risco que motivou a proibição.
Regra binária é ignorada pelo time que precisa entregar e obedecida por quem já não usaria a ferramenta. Uma política útil classifica o dado enviado, não o produto usado, porque é o dado que determina a consequência de um vazamento.
Classifique o dado, não a ferramenta
Quatro categorias bastam para a maior parte das organizações: público, interno, confidencial e pessoal ou sensível. Cada uma define um tratamento diferente, independentemente do produto que estiver em uso.
A regra se aplica ao conteúdo enviado, não ao nome do serviço. Isso resolve o problema prático de uma política que envelhece: ferramenta muda a cada seis meses, categoria de dado não muda.
Classificar por dado também evita a lista de exceções que toda política por produto acumula, com serviços autorizados para uma área e proibidos para outra sem critério explicável.
A classificação precisa vir com exemplos concretos do dia a dia de cada área, e não apenas com definições. Uma pessoa em atendimento reconhece "print de conversa com cliente" com mais facilidade do que reconhece "dado pessoal de terceiro".
A régua em uma página
Pode sempre: conteúdo já público, texto de autoria própria sem dado de terceiro, exercícios, rascunhos e material de estudo.
Pode com cuidado: dado interno anonimizado, sem nome, sem CNPJ, sem valor identificável e sem combinação de atributos que permita reconhecer a empresa ou a pessoa envolvida.
Não pode sem autorização: dado pessoal de cliente ou colaborador, informação protegida por acordo de confidencialidade, dado financeiro ainda não divulgado e código proprietário.
Nunca: dado pessoal sensível. Essa é a única linha da régua que não admite exceção por urgência.
Uma página é um requisito, não uma figura de linguagem. Política que exige rolagem para ser lida é consultada apenas depois do incidente, quando o objetivo passou a ser identificar culpado.
Considere um analista com um contrato de cliente em PDF e prazo de resposta curto. Se a régua estiver visível e indicar o caminho aprovado para aquele documento, a decisão certa custa menos esforço do que a errada.
Por que isso tem endereço legal
Enviar dado pessoal a uma ferramenta externa é tratamento de dados e exige base legal, conforme o art. 7º da LGPD. Não é uma questão de política interna apenas.
Dado pessoal sensível está sujeito a regime mais estrito, previsto no art. 11 da mesma lei, com hipóteses de tratamento próprias e mais restritas.
A intenção de quem enviou não altera o enquadramento. Um envio feito para acelerar uma entrega recebe o mesmo tratamento jurídico de um envio deliberado, o que torna a clareza da regra um instrumento de proteção da própria equipe.
Vale registrar a diferença entre uso pessoal e uso corporativo com dado da empresa. O tratamento acontece pela natureza do dado enviado, independentemente de a conta utilizada ser individual ou institucional.
O caminho seguro que a política precisa oferecer
Se a política apenas proíbe, ela não resolve o problema que motivou o uso. A pessoa que precisava resumir um contrato continua precisando, e passará a fazê-lo fora do registro da empresa.
A política precisa indicar a alternativa aprovada para cada categoria de dado, o canal para pedir exceção e o prazo de resposta desse canal.
Exceção sem prazo vira desvio. Quando o pedido demora mais do que a entrega que o motivou, a regra deixa de ser cumprida e a organização perde a visibilidade que a política deveria criar.
A verificação de cumprimento fecha o ciclo. Sem nenhuma forma de auditoria, a régua vira declaração de intenção, e a organização continua sem saber o que sai dela.
Régua de classificação de dados
- Rótulo
- Em qual das quatro categorias o dado se encaixa.
- Efeito
- O que acontece com o negócio e com o titular se o dado vazar.
- Guarda
- Qual ferramenta está aprovada para aquela categoria.
- Autorização
- Quem libera a exceção e em qual prazo.
- Auditoria
- Como o cumprimento é verificado na prática.
Case relacionado
Projeto Horizonte 180Fontes e referências
LGPD — Lei nº 13.709/2018, arts. 7º e 11
Bases legais para tratamento de dados pessoais e de dados sensíveis.
Acessar a fonteANPD — Autoridade Nacional de Proteção de Dados
Orientações e posicionamentos oficiais sobre proteção de dados no Brasil.
Acessar a fonteISO/IEC 42001:2023
Norma internacional de sistema de gestão de inteligência artificial.
Acessar a fonte
Diagnóstico ÍON de IA aplicada à gestão
Uma sessão de 90 minutos, sem custo, para mapear onde a inteligência artificial já está em uso na sua operação, o que ela mudou no processo e o que ainda não foi medido. Você envia a lista de ferramentas contratadas e um exemplo do processo em que elas deveriam atuar. A devolutiva escrita chega em cinco dias úteis.
Solução ÍON relacionada
Estratégia & Gestão Empresarial
Dúvidas frequentes
- Posso usar ChatGPT com dados da empresa?
- Depende da categoria do dado. Conteúdo público e texto próprio sem dado de terceiro não oferecem restrição; dado pessoal, informação sob confidencialidade, dado financeiro não divulgado e código proprietário exigem autorização.
- O que é dado pessoal sensível?
- É a categoria que a LGPD trata em regime mais estrito, no art. 11, com hipóteses de tratamento próprias. Na régua de uso de ferramentas externas, é a linha que não admite exceção.
- Proibir resolve?
- Não. Política binária é ignorada por quem precisa entregar e empurra o uso para fora do registro da empresa, o que elimina a visibilidade sem eliminar o risco.
- Quem autoriza exceção?
- Um responsável nomeado na própria política, com prazo de resposta declarado. Exceção sem prazo definido deixa de ser usada e o desvio volta a acontecer sem registro.
- Anonimizar é suficiente?
- Só quando a remoção de nome, CNPJ e valores identificáveis impede também a reidentificação por combinação de atributos. Se o conjunto restante ainda permite reconhecer a pessoa ou a empresa, o dado continua sendo pessoal.
Autor
Leandro Bryk
Consultor responsável pela ÍON Soluções, atuando em inteligência comercial, estratégia, gestão financeira, marketing e imagem corporativa.
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